• Lourenna Miguel

O Envelhecer na rua

A maioria da população em situação de rua concentra-se nas grandes metrópoles brasileiras e é caracterizada pela situação de vulnerabilidade social e de pobreza extrema.


São pessoas para as quais algumas das instituições básicas da sociedade – propriedade privada, família, mercado – deixaram de propiciar as estratégias usuais de sobrevivência. A trajetória de vida que as levou às ruas desenha, na maioria das vezes, uma sequência de fatos tais como fracassos pessoais e violências institucional e familiar. Se a exclusão e o desamparo as igualam frente aos olhares da sociedade, de uma forma geral, alguns fatores as diferenciam tais como os motivos que as levaram para a rua, o tempo de permanência nela, o grau de vínculos familiares existentes e questões singulares que sequer são capturadas nas várias pesquisas existentes.

A rua não é um local digno de vida. As visões mais comuns reproduzidas nos discursos das pessoas em situação de rua entrevistadas por Costa (2007) são as de que a rua é insalubre, que é um espaço de abandono, anonimato, violência e proliferação de doenças. O retrato torna-se mais drástico quando se pensa no idoso morador de rua. Nas ruas, a velhice tem implicado em uma série de infortúnios, incluindo a exposição à violência e à criminalidade, morbidade, acesso precário a serviços sociais e de saúde e baixa expectativa de vida. (SCHRÖDER-BUTTERFILL E MARIANTI apud SILVA E GUTIERREZ ,2013).


O envelhecimento populacional é um fenômeno observado de forma geral. No Brasil, o número de pessoas com sessenta anos ou mais passou de 3 milhões em 1960, para 7 milhões em 1975 e 14 milhões em 2002. Em 2020, as estimativas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) apontam para um total de 30,2 milhões de pessoas nessa faixa etária (14,3% da população total). Estima-se que no Brasil 101.854 pessoas vivem na rua, conforme dados do IPEA de outubro/2016. O Terceiro Censo de População em Situação de Rua de Belo Horizonte, realizado em 2013, identificou 1.827

pessoas em situação de rua no município de Belo Horizonte das quais 9,9% tinham mais de 55 anos. Segundo Mattos e Ferreira (2005), mesmo com poucos dados acerca da população em situação de rua, estes apontam para um aumento no número de idosos nas ruas. Os autores destacam duas possibilidades para essa situação: o povo de rua está envelhecendo sem encontrar alternativas para reverter a sua situação ou o conjunto de vulnerabilidades prementes à população idosa tem fomentado o processo de rualização. O aumento da população idosa torna imprescindível a necessidade de pesquisas voltadas para essa fase do desenvolvimento humano, com o intuito de favorecer a melhoria das condições de vida dessas pessoas, visando o seu bem-estar, autonomia e a redução das desigualdades sociais.


A pesquisa “Envelhe-Ser na rua: significados, atitudes e modos de vida de pessoas envelhecentes e idosas em situação de rua”, realizada em 2016, trata da escuta dos significados atribuídos por estas pessoas ao envelhecer na rua, e da observação das suas atitudes e modos de vida na cidade de Belo Horizonte. A atividade investigativa foi de abordagem qualitativa do tipo descritivo e exploratório, com 20 indivíduos acima de 60 anos, acerca da velhice em situação de rua. Entre abril e julho de 2016, semanalmente, foram realizadas dinâmicas de grupo, rodas de conversa e entrevistas individuais semiestruturadas tanto na Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte, quanto na Casa Aliança. A amostra contou apenas com indivíduos do sexo masculino pelo fato de serem maioria da população em situação de rua.


Os resultados da pesquisa dizem sobre as formas como a população em situação de rua identifica, estrutura, interpreta e explica suas práticas de enfrentamento do cotidiano. Aqui será retratado um recorte com os dados levantados sobre o significado de envelhecer na rua e sobre a saúde.


O que é envelhecer na rua?


A condição de vulnerabilidade aparece nos discursos dos entrevistados, que retratam eventos de violência e sensação de incertezas e inseguranças vivenciadas na rua.

Viver nas ruas quase sempre significa estar em risco. Risco que se transforma em medo cotidiano de ter os pertences roubados, de ser agredido por alguém entre os iguais da rua em alguma briga por espaço ou em uma desavença, de ser alvo de agressões inesperadas vindas de setores preconceituosos da sociedade para com esse público, ou mesmo dos órgãos oficiais responsáveis pela segurança.


“minha cabeça é jovem.”


“envelhecendo na rua é pior, só que o sofrimento de rua é pior, porque tem que ficar escondendo as suas coisas, qualquer hora pode ser roubado, o risco é maior, na sua casa é melhor, está tranquilo.”


“pegando drogas, o dia todo tem uns que não valem nada, uns vagabundos, e por isso que os velhos estão ficando.”


“caídos debaixo da marquise, não tem família. Não tem ninguém para ajudar, dá dó. Envelhecer na rua é coisa horrível. A gente dorme mal, não alimenta bem, não toma banho, não dorme sossegado, frio, sono, a gente fica doente.


“É muito triste, é muito, é muito triste!”


Como relatam sobre a saúde?


Grande parte da produção científica associa o processo saúde-doença das pessoas em situação de rua a dermatites, a helmintoses e aos sofrimentos

psíquicos, ou seja, limita a compreensão do processo saúde-doença às questões biológicas/ patológicas e, em alguns casos, associa-o a um fator social, em geral, relativo ao estilo de vida. A forma de pensar e produzir serviços de saúde, modelo multicausal, não tem conseguido resolver os problemas da população brasileira e muito menos da população em situação de rua. As pessoas que vivem nas ruas dificilmente conseguem adequar-se às exigências dos tratamentos médicos, por exemplo; por isso, muitas vezes, padecem de doenças que em outras circunstâncias menos adversas teriam possibilidade de tratamento.


Paiva (2016) comenta que as concepções de saúde para a pessoas em situação de rua estão associadas à capacidade de estar vivo e de resistir ao cotidiano de dificuldades nas ruas, já a doença foi associada ao estado de debilidade a ponto de não poder trabalhar, à impossibilidade de batalhar e ganhar dinheiro, ao impedimento de realizar tarefas simples ou, no caso extremo, ao organismo não suportar o sofrimento, enfraquecer e sucumbir. Os significados de saúde e doença para as pessoas em situação de rua são diversificados: não há conceitos melhores ou piores, e, sim, que fazem sentido para o que os indivíduos estão vivenciando. Alguns fazem associação de saúde com ausência de doença. Outros remetem a saúde às condições enfrentadas pela sobrevivência na rua: exposição ao frio, tabagismo, alcoolismo e drogadição.


Pode-se dizer que o maior problema na área da saúde que atinge essa população está no campo das doenças mentais. Contata-se a falta de equipamentos públicos como banheiros e as violências praticadas entre os próprios moradores e de outros setores como uma contribuição para a diminuição da autoestima do idoso em situação de rua. Compõem esse quadro a dependência de substancias psicoativas e as neuroses e psicoses, de tal modo que a grande maioria de pessoas que vivem nas ruas tem algum tipo de sofrimento psíquico. O uso abusivo de bebidas alcoólicas incorpora-se a esse modo de vida, pois é, ao mesmo tempo, forma de aquecimento e embotamento emocional e também atua como fator de aproximação interpessoal.


“Fiquei dois anos na cadeira de rodas, quatro meses usando fraldas, mas vim

para a rua a procura de local que me acolhesse.”


“Estou precisando de ajuda...caio muito e preciso de alguém para me ajudar. Já caí até da cama.”


“A cabeça não grava mais nada,

porque é cheia de problemas.”


“Em depressão, você acaba fazendo besteira. A depressão faz a pessoa chegar à loucura, faz a pessoa não sei para onde, faz a pessoa suicidar, é não é? Faz a pessoa encher a cara, aí vai, é só morrer.”


Conclusões

Os idosos que vivem na e da rua buscam ou se mantêm nesse espaço cada vez mais sustentados por fatores sociais, políticos e econômicos e por não terem seus direitos garantidos.


A inacessibilidade a direitos fundamentais e a deficiência de políticas públicas de moradia, educação, assistência e seguridade, e, na maioria das vezes mínimo suporte social específico como: ausência de banheiros públicos e locais para higiene nas ruas, e locais para se alimentarem, são expostas nas demandas explícitas e na luta cotidiana das pessoas idosas entrevistadas.


A rua se apresenta num duplo espaço de liberdade e de busca de reconhecimento, e de novos modos de agrupar, construir solidariedade que não pelos valores vigentes. Ao mesmo tempo, por ser um lugar de contraposição ao sistema paternalista, é também um lugar de dor, de escárnio, preconceito exclusão na sociedade atual somando os estigmas da velhice, da pobreza e de ser da rua.


Referências:


ARCE, A. et al. A psychiatric profile of street people admitted to an emergency shelter. Hospital and Community Psychiatry, V.34, N.9, p. 812-817.1983.


BRETAS et al, 2009). BRÊTAS, A.C.P. et al. Quem mandou ficar velho e morar na rua? Ver da Esc de enfermagem SP, V.44, N.2, 2010.


COSTA, Daniel. 2007. A rua em movimento: experiências urbanas e jogos sociais em torno da população de rua. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.


MATTOS RM, FERREIRA RF. Quem vocês pensam que (elas) são? - Representações sobre as pessoas em situação de rua. Psicol. Soc. V. 16, N.2,p.47-58.maio-agosto2004


MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa. Saúde da população em situação de rua : um direito humano / Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014. 38p. : il. ISBN 978-85-334-2201-8 1. Atenção à Saúde. 2. População em Situação de Rua. 3. Equidade em Saúde Social. I. Título.


PAIVA ,Irismar Karla Sarmento de. Direito à saúde da população em situação de rua: reflexões sobre a problemática. Ciência e Saúde Coletiva. V.21, N.8, p.2595-2606, 2016


PREFEITURA MUNICIPAL DE BELO HORIZONTE (Minas Gerais). Terceiro Censo de População em Situação de Rua e Migrantes de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Prefeitura Municipal de Belo Horizonte/Centro Regional de Referência em Drogas; 2011.

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