• Lourenna Miguel

O planeta “rua”

Perder tudo.

Se fossemos viajantes em mundos distantes e chegássemos em um planeta onde pessoas que sentem, tivessem perdido tudo, menos os seus sentidos e a sua capacidade de sentir.


Pessoas que perderam a família, o endereço, a identidade, o trabalho, mas não perderam a capacidade de amar, sofrer, chorar e rir, pessoas que ainda podem sonhar, desejar, sentir o cheiro e o paladar. Mas essas pessoas perderam tudo. Elas moram em um planeta chamado “rua”. Tão longe e tão perto, os viajantes por planetas diversos, apenas observam aquelas pessoas que perderam tudo, mas que continuam tendo o que mais importa, os seus sentidos, e entre esses, o sentido do amor. Essas pessoas do planeta chamado “rua” sentem o cheiro da rua, comem restos da rua. É o que está ao alcance do paladar e do olfato das pessoas do planeta “rua”.



Para chegar ao planeta “rua” basta, para os viajantes, descerem pelo elevador e dar alguns passos, caminhar um pouco ou descer escadas, ou para os viajantes que moram em condomínios mais distantes, dirigir suas sofisticadas naves automóveis que logo chegarão ao planeta “rua”. Muitos, ou quase todos viajantes, usam o planeta “rua” só de passagem. Como se fossem viajantes de um pacote de viajem, apenas olham de fora, observam, mas não há tempo de parar e sentir o que sentem os habitantes do planeta “rua”. Afinal, há tantos lugares para “ver” que não dá pra parar e sentir como é a vida naquele planeta malcheiroso.


Como seria para esses viajantes de um “bem-estar” tão distante e um “lugar” tão próximo, experimentar o alimento daquele estranho planeta? Dormir no chão duro, poder sentir o frio e a água da chuva enquanto dorme; o cheiro de urina e de merda. Conhecer os estranhos animais que habitam o planeta “rua”. A diversa fauna do planeta rua é basicamente constituída de “insectóides”, de roedores e cachorros mal alimentados. Gatos também. Não são perigosos, senão pela sujeira e logo as doenças que daí decorrem. As agencias de viajem deveriam vender pacotes para que os viajantes pudessem desfrutar de seis noites com alimentação e safari incluídos para conhecer e experimentar o planeta “rua”.


Neste planeta tão longe e tão perto, são alguns minutos de viagem, mas uma imensidão desértica para vivenciá-lo, o pacote poderia vir acompanhado de experiencias emocionantes. Entre essas experiencias, os viajantes poderiam desfrutar da constante intimidação policial; perder seus bens para os agentes do estado, bens quase inexistentes e sem algum valor para qualquer outra pessoa; serem importunados, agredidos e às vezes até queimados pelas pessoas “de bem”, bem vestidas, que não suportam o odor do planeta. Sem dúvida uma experiencia que poderia mudar a percepção, que os viajantes têm, dos habitantes do planeta “rua”.


Esses habitantes nasceram como nós, são da mesma espécie, sentem, têm paladar e olfato; desejam; sonham; amam; mas foram condenados a viver em um outro lugar, muito próximo, mas em um “estado de mal-estar” muito, muito distante, quase inimaginável para os viajantes, que simplesmente passam, pelo planeta “rua”.


O que fazer?


José Luiz Quadros de Magalhães

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